Economia

PATRIANI É VÍTIMA DE
FRONDOSA ARMADILHA

DANIEL LIMA - 23/06/2026

A crise instalada na Construtora Patriani se repete em diferentes graus em inúmeras empresas do setor imobiliário  -- entre outras atividades privadas. O noticiário especializado dá conta disso. Só não conta de maneira enfática uma realidade cruel, que também é passado recente cruel  e  passado remoto igualmente cruel. Do que se trata, afinal? Entre os fatores que fazem de lucros,  prejuízos, de contratações, demissões, e de entregas, temores, há um vilão esperto e opressor nem sempre nominado e execrado: o Estado Federal interventor e massificador de ilusões em todos os setores econômicos.

É frondosa a árvore genealógica da crise nacional que se reproduz em ciclos de euforia manipulada ou programada para abastecer  o calendário eleitoreiro. Sobremodo no mercado imobiliário, o sol escaldante de um verão anabolizado por interesses políticos torna-se  tempestade de horrores ante a realidade que sempre resiste e se impõe.

Estado Federal é diferente de Estado Estadual e de Estado Municipal. As imparáveis políticas públicas, econômicos e sociais federais são ditadas por Brasília. E Brasília, como todos sabem, é a farra do boi da esculhambação de carga tributária incontrolável e gastos insuperáveis. O noticiário diário dá conta de estelionatos informativos que seduzem a boa-fé de empreendedores privados.

ENTREVISTA PROVIDENCIAL

A entrevista especial que o Diário do Grande ABC publicou ontem com Valter Patriani – e que reproduzimos abaixo  -- é bastante interessante e deveria ser consumida por todos. Há saudável bifurcação entre questionamentos certeiros e respostas sem embromação, embora cuidadosas diante do ambiente nacional.

Como assim, esse ambiente nacional? Não é de hoje nem será diferente amanhã o uso frequente de código de conduta empresarial em relativo segredo para dar conta da elasticidade reversa de queixas ao  governo federal e, em seguida, o incômodo de confrontos com o mesmo governo federal em outras esferas.

Todos os leitores de CapitalSocial sabem que visto desde sempre a camisa da livre-iniciativa, principalmente de pequeno e médio porte. Não preciso repetir razões filiais e filosóficas nesse sentido. Somente idiotas juramentados confundem livre-iniciativa com sistema financeiro. É algo como a distinção de estar no corredor da morte e ser convidado às festas comportadíssimas de magnatas como Daniel Vorcaro. Os idólatras empacotam tudo com viés protetor de ideologias anticapitalistas.

INTERESSE SOCIAL

Por conta disso, portanto, sempre me coloco em defesa dos empreendedores em situações de clareza e de responsabilidade social. Acompanhei de perto a derrocada das pequenas indústrias do Grande ABC, principalmente nos anos 1990. E prevejo agravamento no desastre dos pequenos negócios comerciais já abatidos no passado e agora sob  pressão do comércio eletrônico das grandes plataformas, sobretudo as asiáticas devoradoras de direitos trabalhistas e abusivas em direitos sociais.

Valter Patriani e outros empresários do setor imobiliário merecem minha atenção. Até mesmo como resposta àqueles igualmente empreendedores no setor que, mesmo em posição de destaque na hierarquia institucional e econômica, praticamente nada fazem pelo conjunto da classe e tampouco em defesa dos interesses da sociedade que também é consumidora dos produtos de tijolo e cimento. Todos sabem os nomes desses bois de individualidade no Grande ABC, microcosmo nacional.

O fato estrutural que explica as desventuras da Patriani é a incompetência de gerenciamento macroeconômico do Governo Federal desde sempre. Os juros estratosféricos transformam empreendedores criativos em otários enlouquecidos. Quem se arrisca a buscar lucro fora da zona de agrião dos ganhos financeiros líquidos que a gastança do Estado Federal incentiva para financiar o buraco orçamentário age muito acima do bom senso. O matadouro está logo adiante.

INFORMAÇÕES INFLUEM

Qualquer negócio muito bem administrado neste País no contexto que vivemos exibe o traseiro de riscos associados. Quando há descompasso entre oferta e demanda, e o Brasil é pródigo nisso, todos os controles preventivos de corporações empresariais dão sinais de esgotamento. E toda a coragem empresarial de ir acima da média de velocidade de concorrentes, com inovações reconhecidas,  caso da Patriani, vai para o beleleu. A macroeconomia de responsabilidade intrínseca do Estado Federal é um show de horrores. É um atirador de facas de circo mambembe encharcado de cachaça.

Por essas e outras tenho muito cuidado e não me faço de rogado a alertar adicionalmente a importância do ambiente midiático nacional. Imagino como especialista que sou em jornalismo, como seria possível os comandantes de empresas de qualquer porte, principalmente médias e pequenas, sustentarem perspectivas factíveis mesmo com gente talentosa ante a parafernália de cenários propagados em todos os tipos de mídias.

Há abundância irresistível de modelos que vão do oito do triunfalismo ao 80 do derrotismo. Nesse intervalo, tudo pode acontecer. A crise mais recente do mercado imobiliário no Brasil encaixotou a esperança de muitos empreendedores e adquirentes. O sistema financeiro virou grandes imobiliárias de inadimplentes. O governo Dilma Rousseff pegou a bucha de canhão da gastança do antecessor, Lula da Silva, e se formou um forrobodó dos infernos. 

REPARO À PRESSA

O empresário Valter Patriani fez um reparo de ordem corporativa aparentemente em algo que se revestiu no processo de fragilização da empresa nos últimos anos. Foi tão discreto na avaliação quanto também no cuidado de endereçar as maiores ramificações das complicações gerais ao governo federal.

Patriani se referiu sutilmente sobre os executivos da empresa que não observaram o cenário nacional e Internacional que dita com portentosos poderes o rumo  das economias. A Patriani teria alavancado demais os investimentos e a taxa de juros fez um rapa-geral na rentabilidade e, mais que isso, criou uma cratera de discrepâncias que tingiram os balanços  de vermelho-desespero.

Valter Patriani  agora comanda pessoalmente a empresa e de imediato a retirou da fabricação de torres residenciais consagradas pela qualidade e inovação, deslocando-a à concepção planejamento e vendas. Terá sobrecarga de trabalho, em jornadas de 7x0, porque quem empreende neste país não pode se descuidar. E mesmo assim é atropelado por detentores de poderes muitas vezes sem compromisso com o ecossistema de negócios.

O Brasil de regime econômico que flerta com o socialismo, tamanha a carga tributária e os riscos latentes de sobrepostos estatais, não é mesmo nem para os especialistas.  Chamem os mágicos.

Segue a entrevista especial do Diário do Grande ABC com Valter Patriani. Uma excelente entrevista, por sinal:

DIÁRIO DO GRANDE ABC  

Valter Patriani: ‘Recalculamos a rota

 e vamos continuar a nossa história’

“Tem hora que o dono precisa voltar ao negócio.” É dessa forma que Valter Patriani justifica o retorno ao comando da construtora que fundou há 15 anos. Após um período de expansão agressiva, a empresa fechou 2025 com prejuízo na casa dos R$ 300 milhões e colocou o mercado em alerta. Patriani identificou o custo das obras, principalmente pela alta dos juros, como o principal gargalo a ser enfrentado. Com isso, a companhia está em fase de transição para atuar exclusivamente como incorporadora. Ou seja, vai elaborar projetos e vender os imóveis, mas contratará outras firmas para levantar os prédios. “A lição de casa, de estruturar a empresa, já foi 80% feita”, garante. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Qual é a atual situação da Construtora Patriani? 

VALTER PATRIANI – A  Patriani é uma empresa de 15 anos e tem origem no Grande ABC, com foco no médio e alto padrões. A ideia sempre foi ter plantas mais tecnológicas, disruptivas. A Patriani precisava entrar no mercado com alguma coisa diferente. Tanto que os primeiros prédios com vaga com tomada para carro elétrico, nós que fizemos. Começamos a pensar em imóveis que seriam modernos daqui a 20 anos. E sempre em boas localizações. E a Patriani começou a vender com boa velocidade. Nós tivemos um crescimento até maior do que muitas construtoras. No ano de 2021, mesmo com a Covid, nós vendemos 11 prédios. Mas se a venda foi boa, nós também tivemos muitos problemas para construir, a logística atrapalhou as margens da Patriani. Mas entregamos todos. Os prédios vendidos em 2021 foram entregues em 2024. A partir de 2023, os juros subiram de uma forma desproporcional, ninguém imaginava que nesta época estaria em torno de 15%. Isso inegavelmente atrapalha os negócios e também impactou a Patriani. Porque as vendas perderam velocidade. Então nós tivemos que dar uma recalculada na rota. E começamos a fazer isso no ano passado. Precisávamos pagar menos juros, renegociar melhor com fornecedores, porque tínhamos que entregar os prédios. E pegamos outras construtoras para continuar as obras. Porque o mais importante naquele momento era entregar os prédios. E aí a Patriani começou um processo de reestruturação, para encontrar o seu melhor caminho. Éramos construtora e também incorporadora. São duas atividades diferentes. Nesse novo cálculo de rota, decidimos não ser mais construtora. Tanto que a gente volta a lançar (empreendimentos) com boa velocidade a partir do ano que vem no Grande ABC. A lição de casa de estruturar a empresa já foi 80% feita. Agora, que está mais equilibrada, que acertamos os custos e fizemos os ajustes, vamos voltar a trabalhar. Este ano nós não lançamos nada. Tiramos a força dos lançamentos, estruturamos melhor a empresa. Agora, nos próximos projetos, a Patriani será uma incorporadora, ou seja, nós vamos vender, organizar, pensar bons projetos, mas na hora de construir, vamos chamar uma construtora parceira para fazer isso. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC -- E como será essa nova linha de atuação da empresa? 

VALTER PATRIANI -- A Patriani continuará com o seu time de planejamento de incorporação. Que é aquele que cria o produto, que estuda o mercado, que conversa com o cliente e vende. A gente vai lá, prospecta um terreno, aprovamos o projeto, lançamos e vendemos. Na hora de construir, será uma construtora que vamos contratar. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC -- A Patriani fez demissões? 

VALTER PATRIANI  -- Quando a gente diz que saímos de 1.500 funcionários para 50, isso é mal interpretado. Esses funcionários continuam (trabalhando). Eles mudaram de empresa. As obras seguem. E, ao contrário, a Patriani neste momento contrata. Só que para as construtoras que estão assumindo as nossas obras. Não tivemos nenhum trabalhador desempregado. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Como visualiza o futuro da empresa? 

VALTER PATRIANI -- No ano passado, tivemos que encarar o nosso problema: estávamos pagando muito juros e precisávamos arrumar a empresa. A Patriani precisava dar alguns passos para trás para poder dar muitos passos para frente. Então, a gente parou um pouquinho, se arrumou, está se ajustando, entregando as obras. Neste ano nós vamos entregar seis prédios. No ano que vem, vamos entregar mais seis. Toda vez que eu entrego um prédio, a dívida diminui. A Patriani está com R$ 300 milhões de prejuízo, mas é contábil. Existe até entregar o prédio. Nós vamos continuar sendo a Patriani de sempre. Arrojada, dinâmica, pensando muito em prédios tecnológicos e para a classe média. Não vamos mudar nosso destino. A gente vai continuar a nossa história. E eu acho que nós temos uma boa história! E 80% da reestruturação já foi feita. Agora eu me sinto mais confiante e 2027 será um ano especial para a Patriani. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Se pudesse olhar no rosto de cada cliente da Patriani, o que o sr. diria? 

VALTER PATRIANI -- Eu diria que nós vamos entregar o imóvel que ele comprou e no prazo, porque os prédios estão bem ajustados. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC -- O sr. avalia que a empresa cresceu rápido demais? Ou foi muito agressiva? 

VALTER PATRIANI -- Eu acho que a gente foi agressivo, mas não sei se foi demais. Mas crescemos rápido. O crescimento da Patriani estava planejado. A Patriani não previu o aumento brutal dos juros. Em 2022, 2023, não havia essa previsão. Os juros brasileiros são muito altos e os negócios não suportam. Se você pegar o balanço das empresas, o pior problema é o custo da dívida. Se eu não tivesse crescido, teria menos problemas? Mas naquele momento não foi um ato irresponsável. Agora, você vai dizer, ‘mas você é ingênuo, você acreditou no Brasil?’ Eu acreditei no Brasil, sim. Mas não deveria ter acreditado? Não quero pensar assim, quero pensar que naquele momento nós tínhamos uma política, um governo estimulando as construções, o Brasil seguia bem, tínhamos uma ideia de economia, o Brasil crescia perto de 2,5%, mas aí teve um desequilíbrio nas contas públicas, o governo gastou mais do que o normal, os juros subiram, o mercado ficou difícil e a Patriani entrou nisso. Mas eu não queria dizer que foi um ato de ousadia, que foi um ato de crescimento. Naquele momento, a Patriani estava com boas oportunidades e tinha de seguir. Só que veio a crise dos juros e nos machucou. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Do ponto de vista prático, o que o sr. está fazendo para pôr a casa em ordem? 

VALTER PATRIANI -- Fizemos uma redução grande de custos. O nosso custo maior estava nas obras, que é onde tínhamos um desequilíbrio. O custo de obra oscilou muito, o da mão de obra subiu muito para nós, começou a faltar funcionários, nós tivemos que pegar funcionários por um custo maior do que o previsto. Então, por isso, a principal arrumação da Patriani é que nós vamos contratar alguém que faça isso bem (construir). A nossa especialidade é vender bem, e nós tínhamos uma construtora. Mas a Patriani construía só para ela. Nós vamos tentar pegar construtoras que constroem para todos no mercado e que tenham um ganho de escala melhor. Eu vendia bem, tinha bons produtos, construía bem até então, só que o custo da obra estava saindo do orçamento. O que vamos fazer daqui para frente é continuar construindo, mas deixando essa tarefa para alguém com mais experiência. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC  -- Existe alguma possibilidade de a Patriani pedir recuperação judicial? 

VALTER PATRIANI -- Não. Desde o ano passado, quando a Patriani anunciou a reestruturação, o mercado falou sempre que poderia ter uma RJ (Recuperação Judicial), e desde lá nós estamos desmentindo. Era uma possibilidade na época, mas nós achamos que tínhamos de fazer a lição de casa e também proteger os clientes. Tínhamos que entregar os prédios. A Patriani era uma empresa com CEO, tinha presidente contratado. Os nossos executivos eram muito profissionais, mas não deu certo. O nosso presidente acabou não conduzindo a companhia do jeito que queremos, e a hora em que a Patriani teve que fazer a sua estruturação, eu preferi assumir a companhia diretamente. Tem hora que o dono precisa voltar ao negócio. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Na prática, o que muda com o sr. à frente do negócio? 

VALTER PATRIANI  -- O que muda é que a visão do dono é sempre mais conservadora. Porque o executivo, ele executa e o dono olha para o futuro. Eu precisava olhar, precisava que o dono moldasse o futuro da Patriani. Eu precisava saber qual era a escolha da Patriani para o futuro. Então, quando eu assumi a companhia, tirando o executivo profissional, eu percebi qual era o nosso maior problema: obras. No futuro, podemos até voltar a ser uma construtora. Mas, nesse momento, o foco é ser uma incorporadora tecnológica, que tem produtos admirados, que os clientes gostam, e podemos pedir para outras construtoras grandes fazerem esse trabalho para nós. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Como o sr. vê o Grande ABC e como imagina o futuro da região? 

VALTER PATRIANI -- É uma terra de oportunidades. Eu sou bairrista, porque, como eu sou do (Grande) ABC, acho que a qualidade de vida é melhor do que em São Paulo. Tudo aqui é mais perto, é mais fácil. As burocracias são menores e o acesso à comunidade é maior. E são cidades muito grandes. Santo André está próximo de 800 mil habitantes, São Bernardo, de 850 mil. (A região) tem um poder econômico extraordinário. Hoje, nós estamos experimentando uma migração de pessoas, porque a cada dia também tem mais empregos no Grande ABC. Por isso, a cada dia também as pessoas estão precisando sair menos para trabalhar em São Paulo. A Patriani continuará a investir e se volta ainda mais para o Grande ABC nesta retomada. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC -- A Patriani tem 20 empreendimentos em construção. Qual a previsão de entrega e quantos são no Grande ABC? 

VALTER PATRIANI -- Praticamente todos estão em obras, e até o fim de 2027, nós vamos entregar 16. Vão ficar quatro para 2028. Temos a maior obra civil do (Grande) ABC, são seis torres no Nova Petrópolis (em São Bernardo), o projeto da (Avenida) Kennedy, também em São Bernardo, o da (Avenida) Industrial, em Santo André. E em São Caetano, nós temos dois para entregar entre o fim deste ano e o começo do outro. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Ano passado circulou um vídeo que mostra o sr. sendo vítima de um arrastão, próximo de uma obra. Aquele foi o momento mais complicado da sua vida? 

VALTER PATRIANI -- Não, não foi. Eu já tinha tido outros assaltos na vida. Já tinha tido outras experiências muito desagradáveis. Claro que fiquei muito assustado. Foi um fato que me marcou, porque me deu a impressão de um sequestro. O jeito que eles me fecharam na rua. Sabe a sensação que tive? Que seria sequestrado. Eu diria que, nos tempos recentes, foi o que mais me chateou. Agora, essa travessia da Patriani também tem sido uma experiência muito forte, só que de uma forma diferente.


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