O gol de relativa preservação e quem sabe até de fortalecimento estrutural da cadeia automotiva do Grande ABC está escancarado. É preciso ser muito perna de pau para não ver o que está acontecendo. Uma situação sobre a qual já emiti várias análises. Mas esta nova intervenção tem razões suplementares e um contexto especial, de dupla face. Os invasores e predadores chineses estão no centro das preocupações. Com apoio do governo federal e complacência ou descuido ou tudo o mais de muita gente na região. É hora de reagir com firmeza, destreza e competência. Perdemos metade do PIB Industrial neste século. Perdas reais, não apenas relativas.
A primeira face do contexto no setor automotivo é doméstica, de cunho municipalista, e envolve o novo secretário de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo, o empresário e integrante do Ciesp Mauro Miaguti. Ele substitui a Rafael Demarchi, afastado para concorrer a deputado federal especialmente para tirar votos do adversário Orlando Morando, ex-prefeito de São Bernardo. Político sem lastro econômico – apesar do currículo enganoso – é para isso mesmo. Não à toa propagandeou aos quatro cantos que São Bernardo acumularia saldo de 100 mil empregos formais durante os primeiros quatro anos do prefeito Marcelo Lima. Saiu devendo mais de 90 mil postos de trabalho após 15 meses.
AONDE A VACA VAI
A ficha de articulista institucional de Mauro Miaguti é opaca e vem de longa data. Basta dizer o seguinte: ele, como todos os representantes de indústrias de São Bernardo, desapareceu do mapa de inquietação e reação durante todo esse século, inclusive ou principalmente na recessão mais cavalar da história regional, nos dois últimos anos de Dilma Rousseff. Também foi uma nulidade institucional durante os oito anos de massacre regional de Fernando Henrique Cardoso.
A segunda face dessa emergencial empreitada está localizadÚ no Clube dos Prefeitos, oficialmente Consórcio Intermunicipal. O prefeito dos prefeitos Guto Volpi garante, inclusive em reportagem publicada hoje no Diário do Grande ABC, que pretende empreender esforços para a retomada industrial na região. Sem São Bernardo, Capital Econômica e detentora da concentração expansionista do setor automotivo, nossa Doença Holandesa, nada fluirá.
Aonde a vaca do setor automotivo regional for, o boi do Desenvolvimento Econômico vai atrás. Escrevi essa frase-mantra de gosto duvidoso mas endereçamento certeiro há mais de 30 anos. E tudo se consumou.
CLUBE DAS MONTADORAS
Afinal, o que está faltando nesse momento -- e coloque momento nisso -- para o Grande ABC, com a liderança nacional automotiva de São Bernardo, sinalizar novos tempos no mundo dos negócios e empregos sobrerrodas?
Simples como dois mais dois são quatro: ingressar na mobilização cada vez mais numerosa, liderada pela Anfavea, o Clube das Montadoras de Veículos do Brasil, para sensibilizar o governo federal a enxergar a atividade com muito mais cuidados ante a invasão asiática.
O Grande ABC precisa participar desse movimento sem ferir melindres além dos inevitáveis e, mais que isso, abrir espaço a outras movimentações em localidades que também dependem do mundo automotivo. O horizonte catastrófico imposto pelos chineses com a complacência, quando não suporte, do Estado Federal, é uma caçapa cantada que submete o setor automotivo a temporadas cada vez mais pesadas de violações econômicas e, por extensão, trabalhistas.
Ignorar a mobilização da Anfavea seria o fim da picada porque se perdem duas oportunidades essenciais.
IRMÃ-SIAMESA
A primeira é que continuaremos a naufragar na atividade economicamente mais importante da região, submetida a práticas concorrenciais estruturalmente delituosas dos chineses, Os asiáticos não estão nem aí com o modelo ocidental de produção tão exacerbadamente implantado no Grande ABC.
A segunda é que perderemos uma oportunidade singular de, finalmente, criar raízes com lideranças e investidores dessa monumental cadeia de geração de riqueza. A Anfavea deveria ser irmã-siamesa estratégica do Clube dos Prefeitos. Salvo engano, ao longo da história, jamais houve um encontro sequer entre representantes da região e do Clube das Montadoras. Desdobramentos? Nem pensar.
Vou reproduzir em seguida trechos da reportagem publicada nesta quarta-feira de Copa do Mundo no jornal Valor Econômico sobre os últimos lances da invasão chineses no mercado automotivo nacional.
Não custa lembrar que ainda recentemente, numa iniciativa que flerta com as orelhas daquele animal de quatro patas conhecidíssimo pela imensidão de paciência e submissão, sindicalistas de São Bernardo foram à China em busca de investimentos em forma de fábricas num Grande ABC que há mais de 40 anos execrava relações trabalhistas que redundaram no surgimento de Lula da Silva.
A China é infinitamente mais abusiva que o mercado de trabalho do Grande ABC escondia há meio século.
Vamos então aos trechos do Valor Econômico de hoje para que a compreensão do significado do gol escancarado em São Bernardo:
VALOR ECONÔMICO
O governo federal renovou na terça-feira (23), por seis meses, as cotas de importação com alíquota zero para veículos eletrificados desmontados (CKD) e semidesmontados (SKDE), no valor de US$ 463 milhões. A quantia é a mesma autorizada anteriormente e cuja vigência havia expirado em janeiro. Além disso, foi mantido o cronograma de elevação de tarifas de importação para esses sistemas. A medida reacende uma disputa entre a chinesa BYD e as montadoras representadas pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotivos. No sistema SKD, o veículo chega montado ao país e recebe acabamento final de peças, como pneus. Já no caso do CKD, kits de componentes ou peças são importados para montagem local.
MAIS VALOR ECONÔMICO
No ano passado, a BYD, que se preparava para inaugurar fábrica em Camaçari (BA) com o sistema SKD, encaminhou ao governo pedido para reduzir o Imposto de Importação. Após oposição de outras montadoras instaladas no país, o governo decidiu por solução que atendesse aos dois lados. Isentou esses veículos do imposto durante seis meses, mas criou cotas, divididas por marcas interessadas em produzir nos sistemas CKD e SKD. As cotas eram de US$ 463 milhões. Após encerramento no fim de janeiro das cotas com alíquota zero, as importações de veículos eletrificados SKD e CBU (importados prontos) estão sujeitas a tarifas de 25% para elétricos, 28% para híbridos plug-in e 30% para híbridos convencionais. O governo também estabeleceu no ano passado a antecipação, de julho de 2028 para janeiro de 2027, da elevação do imposto dos eletrificados importados no sistema CKD para o teto de 35%. No caso de SKD e CBU, o tributo chegará a 35% no mês que vem.
MAIS VALOR ECONÔMICO
Pela decisão tomada ontem, além de renovação das cotas por mais seis meses, foi mantido o cronograma de elevação tarifária. Assim, permanece programa para julho alta da alíquota do Imposto de Importação para 35% sobre veículos eletrificados importados no sistema SKD e CBU. Também foi mantido o cronograma para os veículos eletrificados importados pelo sistema CKD. Nesse caso, a alíquota do imposto de Importação atingirá 35% em janeiro de 2027. Até lá, os CKDs continuam com alíquota de 14%. Nas importações que excederem as cotas renovadas, permanece a cobrança de 35% para SKD e de 14% para CKD. A importação de carros montados não terá cotas. “A medida converge com outras iniciativas do governo federal voltadas à renovação da frota e ao fortalecimento da inovação e da descarbonização do ecossistema automotivo brasileiro, com veículos mais sustentáveis, que contribuem para a redução das emissões de CO2”—disse o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços(Mdic) em comunicado.
MAIS VALOR ECONÔMICO
Em nota, a Anfavea afirmou que a decisão de renovar as cotas foi tomada sem consulta ao setor e contraria a política tarifária definida pelo próprio governo. Também disse que a medida gera insegurança para investimentos baseados no cronograma anterior. A entidade argumentou que a medida reduz incentivos à nacionalização de produtos justamente em um momento em que a indústria anunciou R$ 140 bilhões em investimentos até 2033 em que veículos eletrificados produzidos no país vêm ampliando sua participação nas vendas. Mas a Anfavea não detalhou se vai judicializar o tema – possibilidade levantada na segunda-feira (22) pela própria entidade.
MAIS VALOR ECONOMICO
Também na segunda-feira, em entrevista ao Valor, a BYD negou que tenha feito novo pedido ao governo para prorrogar as cotas, mas destacou que entende ter direito a mais seis meses de prazo. A montadora alega que provou ao governo o compromisso com investimentos no país e posterior produção de carros no Brasil. A BYD afirma que já investiu R$ 3,3 bilhões de um total de R$ 5,5 bilhões anunciados.
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