Sociedade

O colecionador
de medalhas

FERNANDO STELLA - 07/12/2004

A cada quatro anos é a mesma história: milhões de brasileiros deixam de lado por alguns dias a paixão explícita pelo futebol para se tornarem especialistas em dezenas de outros esportes. Passam a conhecer golpes do judô, aprendem técnicas do tiro ao alvo e torcem até pelos iatistas. Em alguns momentos, todos estão no mesmo patamar, em busca do sonhado lugar mais alto no pódio. Porém, a realidade sempre volta após a overdose esportiva dos 15 dias dos Jogos Olímpicos. 


Enquanto basquete, vôlei e ginástica olímpica saíram do anonimato e têm espaço garantido nas grades das emissoras de TV, os ainda chamados esportes amadores lutam contra a falta de investimento. Mesmo assim, há quem consiga se superar. É o caso do mesatenista Hugo Hoyama, de São Bernardo, que conquistou oito medalhas de ouro em cinco Jogos Pan-Americanos e se tornou, ao lado do recém-aposentado nadador Gustavo Borges, o recordista brasileiro de primeiros lugares na principal competição esportiva entre países das três Américas.


O mesatenista de 35 anos quer superar o nadador no Pan-Americano agendado para 2007 no Rio de Janeiro e, com isso, ampliar o número de medalhas que, além das oito de ouro, tem uma de prata e três de bronze. Tudo isso sem contar a participação em quatro Olimpíadas — 1992 (Barcelona), 1996 (Atlanta), 2000 (Sydney) e 2004 (Atenas) — e 11 campeonatos mundiais como atleta da Seleção Brasileira desde 1986. 


Incentivo dos pais


Currículo de fazer inveja, principalmente por se tratar de esporte ainda longe do profissionalismo e com pouca visibilidade do público. Hoyama é privilegiado num País em que a maioria dos atletas de modalidades consideradas amadoras precisam dividir o tempo de treinamento com atividades profissionais. Neto de japonês, nasceu em família de classe média de São Bernardo. “Sempre tive incentivo dos meus pais” — lembra Hoyama.


Só apoio familiar não é suficiente para sobressair em qualquer atividade. Por isso, Hoyama soube aproveitar todas as oportunidades. As primeiras raquetadas começaram aos sete anos, quando brincava de futebol e pingue-pongue no intervalo das aulas da escola japonesa União Cultural Nipo-Brasileira, de São Bernardo. Numa dessas recreações Hoyama foi convidado pelo amigo César Kamiya para conhecer o Palestra de São Bernardo, clube no qual treinava a seleção brasileira de tênis de mesa. 


O contato se tornou paixão à primeira vista. Enquanto estudava no período da tarde, treinava três horas diárias. A partir da quinta série do Ensino Fundamental passou a estudar de manhã. Com isso, a carga de treinamento saltou para até oito horas por dia. “O trabalho de base foi fundamental para meu amadurecimento” — acredita o atual número 111 do mundo.


Disciplina e determinação 


Entre um saque com efeito na bola e a maneira correta de se posicionar próximo à mesa, Hoyama sempre teve a cultura oriental enraizada nas atitudes. A disciplina nos treinos se misturou com olhar focado no futuro desde a adolescência. Tanto que com apenas 16 anos recebeu convite para treinar no Japão, então eldorado do tênis de mesa mundial. Não pensou duas vezes, mesmo sob o custo da interrupção nos estudos. “Também adquiri independência graças aos nove meses que passei longe da família” — acrescenta o mesatenista. 


Foi pisar em solo brasileiro após o intercâmbio no Japão para ser convocado ao selecionado nacional. O responsável em acreditar no potencial de Hoyama foi Maurício Kobayashi, que o havia dirigido também em São Bernardo.


Kobayashi é muito mais que um técnico para Hugo Hoyama. Além de treinar o mesatenista entre 1977 e 1993 e retornar em 2001, sempre o incentivou a evoluir também longe das mesas. “Ele é amigo particular. Jamais deixou de acreditar que eu seria o número um do País” — lembra Hoyama, que assumiu o posto de melhor mesatenista brasileiro após a conquista da medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Havana, em 1991. Por coincidência, o salto foi obtido após vitória sobre o amigo Cláudio Kano. 


Físico e mente


Outro profissional que o auxiliou é o preparador físico Nuno Cobra, com quem trabalhou entre 1992 e 2000. O ex-personal trainer de Ayrton Senna não só o deixou bem condicionado fisicamente como trabalhou o lado psicológico. “As lições de Nuno Cobra me deixaram mais sociável” — comemora o atleta, que defendeu equipes brasileiras como Vasco da Gama e Suzano, além de times belgas e suecos.


O ano de 1996 foi marcado por emoções opostas na carreira do atleta de São Bernardo: chegou ao auge da carreira mas perdeu Cláudio Kano. Três semanas antes da estréia nos Jogos Olímpicos de Atlanta, o então número dois do tênis de mesa brasileiro foi vítima de acidente de moto na Capital. Ao mesmo tempo em que chorava a morte do companheiro, Hugo Hoyama precisou derrotar adversários para dar credibilidade maior ao esporte das raquetadas. Quase conseguiu. 


Apesar de derrotar o então campeão mundial, o sueco Jorgen Persson, terminou participação em nono lugar, melhor posição de um brasileiro em Olimpíadas. Também foi quinto colocado no Aberto da China no mesmo ano. Os resultados o colocaram entre os 52 melhores jogadores do mundo.


Para vencer na carreira, entretanto, Hugo Hoyama precisou largar os estudos ao final do terceiro ano do Ensino Médio. Competições, concentrações e inúmeras viagens ao redor do mundo o levaram à decisão. Em compensação, Hoyama só não visitou países africanos. “Perdi na educação, mas ganhei muito em conhecer outras culturas” — destaca o mesatenista, torcedor fanático do Palmeiras.


Realidade valoriza mais


O currículo recheado de conquistas se destaca ainda mais quando se conhece a realidade nacional do esporte dominado pelos chineses. A CBTM (Confederação Brasileira de Tênis de Mesa) recebe apenas 2,5% do valor repassado anualmente pelo Comitê Olímpico Brasileiro com base na lei Agnelo/Piva, sancionada em 2001 pelo então presidente FHC. A medida destina 2% da arrecadação bruta das loterias federais aos comitês olímpico e paraolímpico. Para 2005, é previsto recebimento de pouco mais de R$ 1 milhão.


Hugo Hoyama não fica de braços cruzados. Recentemente foi nomeado vice-presidente da FPTM (Federação Paulista de Tênis de Mesa). Uma das alternativas visualizadas pelo atleta é a massificação do esporte que atrai de 10 a 12 mil praticantes no País. O foco inicial está em atingir as escolas do Grande ABC ao incluir a participação de profissionais capacitados. “Mostraremos a técnica aos alunos” — projeta o mesatenista, que treina em média quatro horas por dia. 


A atuação diretiva não representa o ponto final na carreira do atleta apaixonado por madjan — jogo de cartas oriental. Pelo contrário. Hoyama já traçou planos para o futuro ainda com a raquete e bolinha na mão. Se não bastasse a condição de maior medalhista de ouro em Jogos Pan-Americanos, Hoyama não desistiu de subir ao pódio olímpico. Sabe que terá adversários fortes e o peso da idade. Em Pequim — 2008 estará com quase 40 anos. Ele quer um enredo bem melhor que o das Olimpíadas de Atenas-2004, quando foi eliminado logo na primeira partida pelo polonês Tomasz Krzeszewski.


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