Sociedade

Colecionador da
marvada pinga

VERA GUAZZELLI - 10/02/2005

Nada de bebidas sofisticadas ou vinhos das melhores safras para serem degustados vagarosamente e em ocasiões para lá de especiais. A adega particular de Milton Ferriani abriga produto tão popular quanto o ato de tomar um gole para festejar a vitória do time do coração ou esquecer amarguras momentâneas e explica incontáveis loucuras por conta da paixão. São 3,6 mil garrafas de cachaça, a segunda maior coleção do País, garimpadas durante duas décadas em todo o território nacional, totalmente intocadas e disponíveis apenas aos que conseguem apreciar com os olhos o sabor marcante da iguaria à base de cana-de-açúcar. 


Os motivos que levam esse aposentado de carreira executiva na Rhodia a se dedicar à voyerismo tão peculiar é pergunta sem resposta precisa. Qualquer justificativa, no entanto, surge como aceitável quando o olho brilha diante do objeto de desejo e o toque suave denuncia carinho que não consegue ser integralmente traduzido em palavras. “Nenhum apaixonado desiste facilmente daquilo que se propõe a fazer” — resigna-se Milton Ferriani, sem a preocupação de desmistificar a emotividade que move o mundo dos colecionadores anônimos. 


Ferriani só bebe sucos e refrigerantes. Mal se lembra de algum dia ter colocado uma gota sequer de cachaça na boca, mas sabe tanto das particularidades da bebida como o mais etílico dos apreciadores. À história própria de cada garrafa, o colecionador conseguiu agregar riqueza de fatos derivados do imaginário popular e de cada jornada em busca de mais um exemplar. Com isso, é possível prolongar horas a fio bate-papo sobre o assunto sem correr o risco de resvalar na retórica monótona, repetitiva e pastosa que invariavelmente acomete os que costumam exagerar na dose do aguardente. 


Especulação permanente 


O próprio rótulo das garrafas é convite a especulações de todos os gêneros. Milton Ferriani não sabe com exatidão a idade da pinga mais antiga da coleção. Algumas têm, seguramente, mais de 60 anos. A certeza não vem do fabricante nem da identificação da safra, como nos vinhos de castas nobre. Está estampada na etiqueta que traz a marca e as informações do produto. 


A Cipoada é aguardente de canna analysado em laboratório. Desse jeito mesmo, como se escrevia antes da reforma ortográfica de 1943. “É muita história reunida num único espaço” — enternece-se o colecionador.


O acervo tem causos para todos os gostos. Entre os que Ferriani mais gosta de contar está o da Pinga Pelé. O produto é da década de 60, estampa a foto do maior jogador de futebol de todos os tempos no auge de carreira, mas a comercialização foi proibida. Pelé não queria ter a imagem associada à bebida alcoólica, por isso mandou retirar o produto do mercado. Resultado: o exemplar de Ferriani — presente de um amigo — se transformou na raridade que recompensa qualquer colecionador. 


Mais controvérsia 


Não menos controversa é a história da pinga Havana, proibitiva por questões exclusivas de preço. Cada dose custa entre R$ 40 e R$ 50, mais que o dobro do uísque de primeira linha, porque o fabricante foi processado pelo governo cubano por ter utilizado o nome da república socialista e aproveitou a confusão para valorizar o produto. “Dizem que a pinga é das melhores mesmo e que os funcionários da fazenda preferem receber em pinga do que em dinheiro” — diverte-se Milton Ferriani, ao deixar por conta do interlocutor a responsabilidade de enviar a última revelação para a galeria das lendas. 


Nomes, aliás, são capítulo à parte da coleção. A quantidade de subdivisões exigiria, no mínimo, três horas ininterruptas de leitura dos rótulos para não deixar escapar nenhuma peculiaridade. As prateleiras estão repletas de etiquetas com números e formam nicho onde a boa idéia 51 é apenas figurante diante das 81, 31, 1 e até 1001. Na ala dos velhos dá para encontrar o Barreiro, o Moreno e o Feliz. Na dos santos é Santa Branca, Santa Mônica, Santa Cecília, São Gabriel e mais uma centena de protetores para receber o primeiro gole e abençoar todo tipo de devoção e, claro, de bêbado. 


A coleção exibe também a Caninha Corintiana, envelhecida durante 22 anos conforme aparte providencial de Milton Ferriani, e a Morrão Dunga, fabricada em São Caetano e preferida dos quentões juninos nas década de 70. A divisão mais inusitada, porém, reúne em um dos cantos da adega garrafas que fazem alusão à pornografia ingênua de outros tempos. A De Cabeça Para Baixo, produzida há 40 anos, deu início à coleção de Ferriani. O rótulo exibe o rosto de mulher, cujo desenho invertido se transforma em duas pernas nuas. 


Mão camuflada 


Em outra garrafa, o verso da etiqueta exibe homem com a mão ligeiramente disposta sobre as coxas da mulher. Versão demodê da mão-boba, a imagem só é visível para os que decidirem observar com mais atenção o interior da garrafa. 


O caminho que leva à Pingolândia Ferriani está fechado a visitação pública. Como a adega fica na residência do colecionador, em Santo André, somente amigos e poucos curiosos têm acesso. Nem por isso o espaço guarda ares de quarto de despensa. A organização deixa quase nada a dever a museus oficiais, com conservação impecável do acervo e catálogo que identifica nome, origem e posição de cada garrafa na adega. 


Também a decoração do hall de entrada merece consideração especial. Vários quadros retratam a linha de produção da bebida e quatro relógios com propaganda das cachaças mais populares do mercado. “Pouca coisa na vida vai para a frente sem dedicação e organização” — ensina Milton Ferriani, que costumava cuidar pessoalmente da limpeza das garrafas e agora delega a função. 


Ajudando treinado 


Para isso, treinou ajudante de confiança em ritual de procedimentos que engloba desde o modo como as garrafas devem ser retiradas das prateleiras até a maneira de passar o pano para espanar o pó. É trabalho que demora 15 dias, apesar de os rótulos terem proteção anti-deterioração e as tampas estarem coladas para evitar evaporação natural do precioso líquido ou o assédio de algum visitante mais afoito.


A obviedade do nome Pingolândia Ferriani escancara ainda mais o sentimentalismo facilmente perceptível em Milton Ferriani. O homem de 76 anos que todos os dias observa as aves se deliciarem em seu quintal com a comida e a água — que obviamente passarinho pode beber — batizou a adega em homenagem ao pai, a quem classifica grande bebedor de cachaça. 


O filho lembra com carinho de quando o pai comandava o armazém da família no centro de Santo André e jamais se fazia de rogado: sempre acompanhava o freguês que pedia a boa, a branquinha, a que matou o guarda, a manguaça, a engasga gato ou a amansa corno, entre os inúmeros apelidos que os bebedores contumazes conferem à cachaça.


Milton Ferriani pode até nem se dar conta, mas carrega no sangue a paixão pelo tema que transformou em coleção. 


Nascido na Vila Bastos, contador formado e fluente em francês e inglês, nutre poucas esperanças de que um dos três filhos ou os três netos se candidatem à sucessão ao posto de colecionador. Ele até admite comercializar a coleção, mas titubeia diante da inevitável pergunta sobre preço. Prefere referendar o bom e velho argumento de que valores sentimentais continuam imensuráveis. 


O acervo de Ferriani só perde para o de cinco mil exemplares localizado em Recife e transformado em atração turística. A confraria reúne 15 colecionadores em todo País. O colecionador de Santo André já viajou a Manaus exclusivamente para buscar garrafa de pinga. Descobriu depois que poderia ter adquirido milhares de quilômetros antes, no Rio de Janeiro. Ossos do ofício de quem acredita que sonhos existem para serem realizados. “A paixão pode até abrandar com o tempo, mas o amor não morre” — resume. 


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