Sociedade

Mistura de dar
água na boca

FERNANDO STELLA - 10/03/2005

Desde criança, quando morava no Bairro da Mooca, na Capital, Ana Maria Tomazoni cultivava o hábito de colocar a mão na massa para ajudar mãe e avó no preparo de refeições ou de irresistíveis rosquinhas de pinga. Naquela época também incorporou a tradição espanhola de degustar uma barra de chocolate acompanhada de xícara de café. 

Quase meio século depois, Ana Maria não só absorveu os ensinamentos familiares como se transformou em renomada consultora da área de alimentação em empresas e programas de televisão, proprietária de escola de culinária credenciada pela Panasonic e de loja voltada ao público apaixonado por chocolate, os dois espaços em São Bernardo. Já o café, nunca foi deixado de lado e até hoje é fonte de inspiração para criação de dezenas de pratos doces e salgados.

A carreira dessa mulher de 53 anos foi impulsionado em grande parte pela necessidade pessoal. Sorte da culinária e dos comensais. Em 1982, após lecionar durante três anos no município de Cunha, no Vale do Paraíba, foi obrigada a agregar nova fonte de renda para ajudar nas despesas do apartamento comprado na Vila Euclides, em São Bernardo. Entre uma aula e outra, a pedagoga formada pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) começou a produzir ovos de Páscoa, época em que o apelo do chocolate artesanal era mínimo. 

Estocagem improvisada 

Até usou os estrados das camas dos filhos para estocar milhares de produtos. “Produzimos seis toneladas em apenas três meses” — lembra a mãe de três filhos, que teve de contar com a colaboração de 30 funcionários por causa da demanda inicial.

A relação profissional com a alimentação sedimentou-se no DNA de Ana Maria. Sabedora de que a atuação não ficaria limitada à produção e venda de chocolates, fez pós-graduação em Administração Hoteleira e curso técnico em Nutrição. Tudo isso, somado à didática de anos como educadora, foi fundamental para a abertura da escola de culinária na Vila Euclides, há duas décadas. “Além de receitas de chocolates, ensinamos como preparar doces, salgados e até cursos de etiquetas” — diz uma orgulhosa Ana Maria, radicada na cidade há exatos 23 anos. São duas salas de aula: uma para 25 alunos e outra para 80 usuários.

O espaço teve tamanha aceitação junto ao público que apenas três anos após o início das atividades se tornou escola credenciada da Panasonic, fabricante de eletrodomésticos também para cozinha. Ana Maria mostra o funcionamento de cada tecla de forno microondas da fabricante japonesa de eletroeletrônicos. 

Degustação problemática 

O curso gratuito é aplicado em quatro horas. “O único problema é a degustação dos pratos preparados no final da aula” — brinca Ana Maria, que quase sempre está acompanhada de uma xícara de café. O aparelho microondas também está ao lado da culinarista nas aulas-shows aplicadas em feiras do setor de alimentação para empresas como Garoto, Sadia e Bunge Alimentos.

O crescimento profissional fez com que Tomazoni atingisse outro nível na profissão: artista de televisão. Durante três anos teve duas aparições semanais no quadro Doce Dica, da Rede Mulher. A partir daí, não parou mais. O currículo traz De Note Anote, com Claudete Troiano, da TV Record, ao programa Receita Minuto de Daniel Bloch, na TV Bandeirantes. Isso sem contar a apresentação no quadro da Ofélia, no programa Dia a Dia da Bandeirantes ainda na década de 90, considerado referência no assunto. Atualmente participa quinzenalmente do Sabor & Saúde apresentado por Olga Bongiovani, na Rede TV!.

Entre um gole e outro de café, Ana Maria reconhece que inovação é uma das principais qualidades de boa culinarista. A profissional já criou alguns pratos curiosos que envolvem a nem sempre apreciada mistura de doce e salgado. É o caso do macarrão pene com molho de trufa. Ovo de Páscoa Romeu e Julieta recebe creme de requeijão com pedaços de goiabada. “Criar é um verbo presente no dia a dia dessa profissão” — comenta Tomazoni, também consultora da Abima (Associação Brasileira das Indústrias de Massas). 

Longe da cozinha

O envolvimento de Ana Maria Tomazoni com a culinária ultrapassou as fronteiras da cozinha. A mulher apaixonada por caminhadas matinais, é fundadora da ABPC (Associação Brasileira de Profissionais de Culinária). Foi presidente entre 1994 e 2001. Além de inaugurar 15 regionais pelo País, foi responsável pela criação do Conac (Congresso Nacional de Culinária). O evento é itinerante e terá a 11ª edição em setembro próximo na Capital. Ana Maria sentiu a necessidade de capacitação de profissionais da culinária e não pensou duas vezes: formatou grade curricular de nível técnico. 

O projeto teve apoio do Conselho Regional de Nutrição, do Sesi e da Universidade São Camilo, no Ipiranga, onde funcionou por apenas três anos. “Está desativado em São Paulo, mas em funcionamento nas regionais de Natal e Salvador, entre outras” — explica Ana Maria. 

Insatisfeita, decidiu montar projeto para criar o Dia da Culinarista, reconhecido por lei municipal e estadual desde 1997. “É reconhecimento da nossa classe” — orgulha-se a culinarista ao mencionar a data comemorativa: 9 de dezembro. 

A preocupação com a qualificação de donas-de-casa a profissional da área é constante. Uma parcela desse cuidado é notada às segundas na Fati (Faculdade Aberta da Terceira Idade), da Faculdade de Direito de São Bernardo. Leciona nutrição, gastronomia e etiqueta à mesa para três turmas com 50 alunos cada. Ligação que não deve parar na sala de aula. Ana Maria projeta retorno aos estudos quando encontrar brecha na agenda. Pretende fazer curso de especialização em Gerontologia — especialização médica que cuida da terceira idade.

O apetite aguçado e a facilidade em desenvolver receitas também ganharam ingrediente a mais a partir de viagens à Europa e Estados Unidos. Ana Maria Tomazoni e o marido Hermes não se limitaram em conhecer pontos turísticos do Velho Continente e da Terra do Tio Sam. Enveredaram-se por tour culinário. Priorizaram visita a restaurantes e bares. “Sempre procuramos novidades para serem aplicados em novos pratos” — define Ana Maria. 

As idas e vindas foram benéficas para alimentar a doceria montada no Shopping Matarazzo, na Capital, entre 1992 e 2001. “Em curto espaço de tempo, compramos a loja ao lado e nos transformamos em restaurante graças a procura por novos produtos” — recorda Ana Maria. A loja só fechou por causa do encerramento das atividades do centro de compras. 

Apesar de inúmeras atribuições profissionais, Ana Maria encontra tempo para praticar yoga no mínimo três vezes por semana, além de caminhadas diárias. “Adoro participar de rally de aventura acompanhada da família” — garante. 

Também é apaixonada por literatura. Adivinhe sobre o quê? Culinária. O marido Hermes e os três filhos estão entre as prioridades. O bate-papo da família não poderia ser em outro espaço da casa: a cozinha. Com a xícara de bom café quente acompanhada de barra de chocolate.



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