Imprensa

Outros poderosos chefões (1)

DANIEL LIMA - 11/04/2008

O gataborralheirismo pode conduzir dolentemente à conclusão que apenas o Diário do Grande ABC tem um poderoso chefão, no caso Ronan Maria Pinto já há quatro anos, como teve Fausto Polesi, Edson Danillo Dotto, Maury Dotto e Angelo Puga durante mais de quatro décadas.


O Estadão, a Folha de S. Paulo e tantos outros veículos de comunicação também têm poderosos chefões, individualmente ou em grupo de comando tão restrito quanto solidário aos pressupostos de convergirem à direção preestabelecida e não necessariamente de interesse público.


É assim que funciona a mídia nacional. Aliás, é assim que funciona a mídia internacional em larga escala. Embora os veículos de comunicação devessem ser algo o mais próximo possível do controle social, interesses diversos se solidificam e formam casta diretiva muito difícil de ser sensibilizada. Na maioria dos casos o que temos são encenações de democracia, de responsabilidade social, de pluralismo editorial.


Mídia e negócios caminham sempre na mesma direção, embora o marketing dos detentores faça de tudo para sugerir autonomia da pauta jornalística.


É por essas e outras que, à série “O poderoso chefão”, somarei a partir de agora, e sempre que necessário e possível, “Outros poderosos chefões”.


Dessa forma, os leitores, ouvintes, internautas e telespectadores vão deixar de lado a ingenuidade de imaginar que os grandes veículos da Capital e de outras paragens são puros, castos, solidariamente a serviço da sociedade.


Já escrevi muito sobre essas nuances, mas agora, neste blog, procurarei compartimentar exemplos em temário específico. Por isso, essa é uma nova série que se inicia e que não sei exatamente quando terminará, tal qual, aliás, o que ocorre com capítulos relativos ao Diário do Grande ABC.


Esta é uma maneira, aliás, que encontrei, também, de levar aos leitores deste blog um pouco do jornalismo que se pratica neste País e que olhares menos críticos não captam.


A edição de domingo do Estadão foi, para variar, mais um capítulo de pancadaria no governo Lula da Silva. Escalam-se artilheiros para atingir todas as divisões possíveis do operário que teve a ousadia de virar presidente da República e, com isso, desafiou estruturas hierárquicas de um País que não aceita que a mobilidade social e a mobilidade corporativa provoquem alterações significativas no jogo de cartas marcadas de comandos políticos e econômicos.


O exagero da mídia ao forçar a barra contra determinado governante, seja qual for o governante, fragiliza a credibilidade da informação — mesmo quando a informação está absolutamente correta.


No caderno “Aliás” do Estadão de domingo último, uma entrevista com José Augusto Guilhon Albuquerque, professor de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), foi um derramamento de bobagens contra o governo Lula da Silva.


Vejam o que respondeu o sociólogo uspiano ligado ao grupo de Fernando Henrique Cardoso, indagado sobre a alta popularidade do presidente que, assegura, explicaria a suposta catalepsia das oposições:


“Ela (popularidade) contribui para a letargia da oposição, para a sensação de imbatibilidade, de invencibilidade do presidente. Eu acho que essa popularidade é mais frágil do que se pensa. É popularidade e não total identificação eleitoral. Se você aparecer todos os dias no Jornal Nacional, 99% das pessoas que forem perguntadas durante a pesquisa conhecem você. Isso não quer dizer que vão votar em você. O Silvio Santos concorreu a presidente numa jogada do Sarney para ser candidato da situação. Silvio Santos sempre foi um dos melhores comunicadores do País e começou com uma popularidade que, quando chegou ao programa de TV, caiu pela metade. Não é assim, não é automático”.


Os leitores não estão enganados sobre o que acabaram de ler, neste trecho que pincei da entrevista do sociólogo José Augusto Guilhon Albuquerque, no Estadão de domingo. Repito que ele foi escalado pela direção daquele jornal, como tantos outros, para bater forte no governo Lula da Silva.


Repito que bater forte no governo Lula da Silva é o esporte preferido do Estadão.


Um sociólogo que se preza, e a quem não se pode sugerir que trote durante uma hora seguida para pagar os pecados do fígado, só poderia estar em completo desequilíbrio ideológico ao comparar Lula e Silvio Santos, ao confundir um governo que apresenta conjunto de resultados macroeconômicos que vão muito além das melhores expectativas com a resistência de casca de ovo de popularidade supostamente embalada pelo Jornal Nacional. Fosse assim, fosse o Jornal Nacional catalisador e propagador imbatível de popularidade, Fernando Henrique Cardoso, presidente durante oito anos, não teria deixado o cargo colecionando números duríssimos de rejeição da população.


Contra fatos, caro sociólogo, não há TV Globo que argumente.


E no caso específico do governo Lula da Silva são múltiplos os casos em que a TV Globo pespegou implacáveis reportagens. Tanto que transformou em assunto muito mais importante o anúncio de um dossiê contra o governo José Serra do que a morte de mais de uma centena de passageiros de uma aeronave que mergulhou no Centro-Oeste. O calendário eleitoral e os interesses da Globo determinaram a prioridade da pauta jornalística, que teria sido outra com o grupo de FHC no poder.


No fundo, no fundo, esse sociólogo da USP, mais um aliás que não suporta o operário-presidente, faz parte de uma elite preconceituosa que se comporta calculadamente como suposta detentora do saber e que por isso mesmo atira na vala comum dos idiotas juramentados 99% da população brasileira que assiste ao Jornal Nacional e que, como se fossem anencefálicos, dobram-se irrefletidamente a manipulações dos poderosos chefões da família Marinho — como se os Marinho tolerassem o ex-operário.


Meu velho pai que se foi há quase quatro anos mandaria o sociólogo José Augusto Guilhon Albuquerque lamber sabão.


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