Imprensa

REJEIÇÃO À ANISTIA DE
BOLSONARO É FRAUDE

DANIEL LIMA - 07/08/2025

A Folha de S. Paulo do Instituto Datafolha e o Datafolha da Folha de S. Paulo cometeram  fraude escandalosa na pesquisa publicada segunda-feira sobre os 61% dos brasileiros que rejeitariam candidato favorável à anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a tantos outros do complexo Oito de Janeiro. Quem atribuir a esse texto partidarismo e ideologia precisa de tratamento psíquico. É apenas jornalismo.

A Folha e o Datafolha ludibriaram o distinto público com uma matéria-prima viciada. Matéria-prima no caso são as respostas dos entrevistados. E a fonte dos estragos foi um questionamento indutor ao prevalecimento de resposta desejada pelo Datafolha e a Folha.

Estava na dúvida se revelaria de imediato o crime cometido ou se faria como autores de telenovela que sempre esticam cada capítulo para levar o suspenso até onde podem. Decidi ir diretamente aos finalmentes.

Jair Bolsonaro e outros envolvidos na questão da anistia foram condenados por 61% dos entrevistados. Tudo porque o Datafolha não fez o que um instituto de pesquisa de respeito e seriedade deveria fazer. Vou enviar uma cópia desta análise à Ombudsman da Folha do Datafolha sugerindo que publique o material ou, o que é muito mais provável, que o leia antes do descarte. Se quiser, a Ombudsman pode  repassar ao departamento jurídico do jornal para as devidas providencias legais. Acho que o destino será o silêncio.

ENVIESAMENTO

Vou contar alguns detalhes sobre a publicação deste texto, depois de ter prometido a mim mesmo e há muito tempo que escreveria o mínimo necessário sobre pesquisas que envolvam interesses eleitorais. Para os leitores terem uma ideia, o estoque de CapitalSocial registra 162 textos que, direta ou indiretamente, tratam do Datafolha da Folha. Quando aciono o mecanismo de buscas, são 243 textos com a expressão “pesquisas eleitorais”. Não custa lembrar que o conteúdo desta publicação digital é integralmente próprio.

A fraude – não custa repetir --  diz respeito ao enviesamento e as repercussões eleitorais do enunciado da pesquisa sobre anistia à Bolsonaro e outros. Enunciado é a exposição de uma situação específica levada ao entrevistado para que decida com liberdade a melhor escolha entre as alternativas propostas. Já escrevi centenas de vezes que o enunciado de uma pesquisa, de qualquer pesquisa, pode determinar ou encaminhar a resposta mais preponderantemente contaminada, seguindo com rigor  a perspectiva dos formuladores da questão. É o encabrestamento da opinião pública sob o manto da ciência.

Produzir enunciado exclusivamente à escolha do entrevistado e que, portanto, seja algo o mais intimamente próximo do que chamaria de neutralidade, de isenção, é, portanto, uma peça-chave à credibilidade dos resultados. 

A PROVA DO CRIME

Não foi o que o Datafolha da Folha produziu na questão da anistia. A manobra técnica é tão flagrante e foi detectada por este jornalista já na segunda-feira porque estava relacionada a outro resultado, que explico também sem seguida.

Pretendia escrever sobre o assunto na edição de terça-feira, mas desisti diante de não contar com a prova do crime. A prova do crime que, aleatoriamente, ganhei de bandeja nesta quarta-feira. 

Vamos então ao bendito enunciado e, em seguida, procuraremos destrinchar todos os pontos para provar que a malandragem estatística elevou à manchetíssima da Folha de S. Paulo (manchete dados manchetes da primeira página) e também à massificação midiática ao longo do dia e desta semana. Leiam com atenção o que se segue em negrito: 

"VOCÊ VOTARIA EM UM CANDIDATO A PRESIDENTE QUE PROMETESSE LIVRAR DE QUALQUER PENA OU PUNIÇÃO O EX-PRESIDENTE JAIR BOLSONARO, SEUS ALIADOS NAS ACUSAÇÕES DE PLANEJAR UM GOLPE EM 2022 E TODOS OS CONDENADOS PELOS ATAQUES DE 8 DE JANEIRO?". 

Convenhamos que o exposto pelo Datafolha não tem qualquer relação intelectualmente honesta com algo que não possa ser traduzido como pressão explícita para abalroar o pensamento geral e a definição dos eleitores entrevistados.

Tanto é verdade que mostraremos logo em seguida que a armadilha à liberdade de avaliação ganha a forma de sentença condenatória aos envolvidos no Oito de Janeiro.

Mais que uma sentença condenatória levada a um grau máximo de submissão subjetiva dos entrevistados, o enunciado do Datafolha pode também ser traduzido como uma peça pecaminosa. Afinal, espalhou-se em forma de fake news num ambiente politico e econômico em transe.

Vamos pegar o enunciado pelo colarinho da sensatez. Pretendo mostrar que há um conjunto sistêmico de palavras deliberadamente esquadrinhadas para estabelecer nexo vicioso de causalidade delitiva influenciadora na decisão dos entrevistados. Vejam: 

A) “livrar de qualquer pena ou punição”--  é por si só uma sentença discricionária que interfere no juízo de valor individual dos entrevistados. Ou alguém tem dúvida de que "livrar" carrega percepção popular de algo nada nobre quando se trata do contexto político em questão?

B) "nas acusações de planejar um golpe em 2022 (...) pelos ataques do 8 de janeiro”. Também no caso, "planejar um golpe", “acusações” e “ataques” dão encaminhamento à potencialidade incrementadora à doutrinação punitiva dos entrevistados. 

Parece mais que evidente, porque também extravagantemente infeliz, o que chamaria de contexto central do questionamento que justificaria, claro, a resposta de 61% dos entrevistados favoráveis a não votar em candidato que prometesse “livrar” Bolsonaro, como destacou o Datafolha. 

MUITO MAIS PROVAS 

Se você acha que essa estupidez estatística acabou, espere mais um pouquinho. Como mencionei acima, pretendia escrever sobre o assunto terça-feira,  mas faltava evidência técnica que sustentasse a investida sem meter a mão numa cumbuca.  A evidência técnica, no caso, é o enunciado em negrito, em letras maiúsculas, logo acima, que, entretanto, não constava da reportagem da Folha do Datafolha.

Aliás, a Folha do Datafolha frequentemente dispensa, nas artes explicativas dos resultados, as abordagens integrais do Datafolha. Só foi possível obter o enunciado completo e saltar para esta análise por conta da coluna  “Pergunte aos dados”, assinada na edição de ontem do jornal Valor Econômico pelo jornalista César Felício.

E, como se verá, se trata de uma situação semelhante à do elefante que invade um campo de futebol em disputa decisiva, mas poucos o enxergam. O jornalista do Valor Econômico, especialista em pesquisas, não viu o monumental equívoco do Datafolha ao analisar a discrepância entre os resultados de rejeição à anistia e os resultados de segundo turno da pesquisa eleitoral envolvendo Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro contra Lula da Silva como duas das alternativas de disputa presidencial.  Veja os trechos iniciais do colunista, sob o título “Anistia, tema que não empolga eleitores”: 

 Há um dado intrigante na última pesquisa Datafolha. A comparação entre a intenção de voto de candidatos bolsonaristas e a pergunta que sonda a aceitação de uma anistia “ampla, geral e irrestrita” ao ex-presidente Jair Bolsonaro e demais investigados por golpismo permite levantar duas hipóteses. Uma só não estará certa. Os dados mostram que o apoio a uma anistia é menor do que o eleitorado não apenas do ex-presidente Jair Bolsonaro mas de uma eventual candidatura de seu filho mais extremista, o deputado Eduardo Bolsonaro, que articula a intervenção do presidente americano Donald Trump na política brasileira, exatamente para resolver os problemas do pai. Ou de fato uma franja do bolsonarismo não embarca na principal tese do grupo, martelada pelos seus porta-vozes dia após dia e noite, ou então impera nesse caso o fenômeno da espiral do silêncio. Na primeira hipótese, o resultado seria um indicativo de que há uma distância entre a militância mobilizada e o “maistream” antipetista. Já a segunda hipótese tem relação com o controle social. A espiral do silêncio foi uma teoria elaborada pela cientista política alemã Elizabeth Noelle-Neuman (1916-2010).  Ela observou que entrevistados em pesquisas de opinião tendiam a alterar suas respostas para se ajustarem ao que julgavam ser o consenso médio da sociedade. No caso de pesquisas, é possível que uma parte dos entrevistados pelo Datafolha tenham omitido que realmente pensam sobre a seguinte pergunta “—escreveu o jornalista,  reproduzindo o enunciado fraudulento do Datafolha.

TERCEIRO VÉRTICE 

Como se observa, faltou na avaliação do jornalista do Valor Econômico  um terceiro vértice de possibilidades, provavelmente porque a estudiosa alemã não poderia imaginar que o futuro de pesquisas eleitorais seria um mundo-cão de barbeiragens,  como estou cansado de provar em centenas de análises. 

A dissonância dos resultados ocupa um quadro estatístico na edição do Valor Econômico sob o subtítulo “Nem todo bolsonarista apoia a anistia”. Como se observa, e observei esse ponto como base dessa análise, o que parecia um disparate entre o monolítico apoio ao bolsonarismo nos resultados gerais e a rejeição à anistia, não passaria mesmo e contundentemente de manobras da Folha do Datafolha. De volta à análise do Valor Econômico, reproduzo mais alguns trechos: 

 Em um segundo turno, 43% dos eleitores votariam em Jair Bolsonaro contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e 37% iria de Eduardo Bolsonaro, na mesma simulação. Já os que responderam” sim, com certeza” e “talvez votaria” à pergunta sobre anistia somam 33%. O apoio à tese de anistia é menor que o dado Jair e Eduardo em praticamente todos os segmentos  em que o bolsonarismo pontua melhor  --escreveu César Felício.

O jornalista do Valor Econômico também escreveu sobre outro dado do Datafolha da Folha que me chamou a atenção imediata e que me ajudou a enveredar pelo contraditório estatístico: “(...) Mas entre os evangélicos somente43% querem a anistia nestes termos (do formulário do Datafolha) em que pese 61% votarem no ex-presidente no segundo turno 55% no deputado” – escreveu.

EXEMPLO DE ISENÇÃO 

Para terminar, já que parece desnecessário apresentar mais provas do crime estatístico, provavelmente os leitores perguntariam sobre o enunciado mais adequado. A pergunta é a seguinte: como aferir o apoio aos candidatos que defendem a anistia ampla, geral e irrestrita citada pelo colunista do Valor Econômico, mas que não está sacramentada nestes termos no formulário do Datafolha, embora subjetivamente seja realmente isso? A resposta só poderia ser proposta por especialistas que não olhem o eleitorado e o leitorado em geral como massa de manobra a imposições previamente orquestradas. Algo como o que se segue já seria um tiro de largada rumo à responsabilidade informativa: 

COMO VOCÊ OBSERVA A POSSIBILIDADE DE VOTAR PARA PRESIDENTE DA REPÚBLICA NUM CANDIDATO QUE ANUNCIARIA PREVIAMENTE A DECISÃO DE TORNAR SEM EFEITO AS  PUNIÇÕES AOS ENVOLVIDOS NOS ACONTECIMENTOS DE OITO DE JANEIRO EM BRASÍLIA?



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