Economia

PIB da região ganha e perde
com nova metodologia do IBGE

DANIEL LIMA - 21/12/2015

Saiu o PIB de 2013 dos Municípios do Brasil. O atraso de dois anos na divulgação do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) faz parte do show. O PIB Nacional sai logo no começo do ano seguinte ao registrado, mas o PIB Municipal demora um bocado. O que mais interessa é o comportamento dos sete municípios da Província do Grande ABC. Os resultados são contraditórios a olhos despreparados. E claríssimos a quem se aprofunda nos estudos. Desde 1999, ou seja, nos últimos15 anos até 2013, apenas uma vez, em 2009, tivemos uma temporada de participação relativa no PIB Nacional menor que a de 2013. E nestas alturas do campeonato, o melhor mesmo é explicar o desempenho do PIB desta Província levando-se em conta a participação relativa da região no bolo nacional. O resumo da ópera é que seguimos deslizando a posições menos relevantes no PIB Nacional a bordo de desindustrialização discreta, mas insidiosa.


 


A expectativa de que o PIB da Província acusaria em 2013 a terceira queda consecutiva em valores reais, descontada a inflação, não se consumou. E não se consumou porque o IBGE introduziu inovações metodológicas no macroindicador econômico, repetindo a operação aplicada no PIB Nacional. Mudanças efetivadas a partir dos dados de 2010 e que abrangeram os anos subsequentes, não os anteriores. Com isso, reestruturaram-se os números absolutos e relativos da maioria dos municípios brasileiros. A Província do Grande ABC ganhou em números absolutos nominais, mas perdeu em números relativos deflacionados e também na participação nacional.


 


Mudança metodológica influencia


 


O PIB Regional de 2013 divulgado sexta-feira pelo IBGE (R$ 114.833.210 bilhões) representa apenas 2,16% do PIB Nacional. Jamais desde 2009 a região significou tão pouco à esfera federal. Em 2010, quando o PIB Nacional cresceu 7,5% embalado pelo setor automotivo, a região contabilizou 2,50% de participação no bolo nacional. O melhor resultado deste milênio.


 


Quem se debruçou sobre os números do PIB dos Municípios do IBGE sem levar em conta a mudança metodológica, comparou indevidamente dados vivos e dados sepultados. Um exemplo: O PIB da Província do Grande ABC de 2010, segundo a nova metodologia, registrou em valores nominais R$ 97.343.205 bilhões. Já os números do PIB de 2010 divulgados anteriormente pelo IBGE e também em valores nominais, com a métrica antiga, não passou de R$ 85.010.001 bilhões. A diferença é de R$ 12,3 bilhões ou 12,5% -- sem considerar a inflação do período.


 


Nos anos seguintes, igualmente divulgados pelo IBGE, diferenças semelhantes foram registradas. Por isso, quem calculou o crescimento do PIB de 2013 da região sob os efeitos da mudança nas regras em confronto com os números antigos do PIB de 2012, incidiu em equívoco.


 


Considerando os novos números do IBGE a partir de 2010, o comportamento do PIB da região apresentou duas temporadas de queda (2011 e 2012 quando comparados aos anos imediatamente anteriores) e um discreto avanço (exatamente em 2013 sobre 2012).


 


O PIB da região em 2010 chegou a R$ 97.343.205 bilhões, ante R$ 103.153.607 bilhões de 2011. Quando aplicada a inflação do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) do IBGE de 2011, registra-se queda de 0,50%. No ano seguinte, em 2012, o PIB da região apontou R$ 106.479.067 bilhões. Uma queda de 2,52% em relação ao ano anterior já com os valores atualizados. Em 2013, o PIB da região deveria chegar em termos reais, ou seja, com o índice inflacionário, a R$ 112.771.979 bilhões. Alcançou R$ 114.833.210 bilhões. Crescimento de 1,79%. Entre ganhos e perdas o PIB da região acumulou perda de 1,23% no período. Seria muito mais se não houvesse alteração metodológica.


 


Numa comparação ponta a ponta que leve em conta os novos números oficiais e metodologicamente modificados pelo IBGE, a Província do Grande ABC acumula crescimento nominal de 17,97% entre o piso de 2010 e a chegada de 2013. Como a inflação do período alcançou a 19,38%, a perda de R$ 1.375.108 bilhão significa queda real do PIB de 1,18% no período. Muito menos que a previsão anterior que considerava os dados do IBGE sem mudanças de aferição.


 


Dos sete municípios da Província do Grande ABC o pior resultado entre a base de 2010 e a reta de chegada de 2013 é de Mauá.  Contra uma inflação acumulada de 19,38% entre janeiro de 2011 e dezembro de 2013, Mauá teve o PIB elevado nominalmente em apenas 7,68%. São Bernardo apontou desempenho semelhante: marcou avanço nominal do PIB de 8,20%, mais de 11 pontos percentuais abaixo da inflação oficial. Um resultado que comprometeu o desempenho geral, já que São Bernardo representa 40% do PIB da Província. Os demais municípios cresceram acima da inflação de 19,38%: São Caetano 31,14%, Santo André 35,83%, Ribeirão Pires 46,72%, Rio Grande da Serra 36,84% e Diadema 22,83%.


 


Dados mais completos


 


O cálculo do Produto Interno Bruto (PIB), soma total da renda gerada num país em determinado período, passou a contabilizar, entre outras mudanças, aportes em pesquisa e exploração mineral como investimentos, e não mais como despesas. Além disso, o acionamento de usinas termelétricas também passou a ser considerado, uma vez que aumenta o custo de produção de energia. Os dados do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) foram adotados como parâmetro para mensurar o consumo das famílias. As sedes administrativas das empresas passaram a contar como serviços e em seu local de origem, não mais incorporadas pelas filiais que desenvolvem a atividade fim, como as plantas industriais. Também as holdings entram como serviços e em seu local de origem, não mais incorporadas pelas filiais que desenvolvem a atividade-fim da companhia. Houve também arranjos na construção civil e na saúde pública. Tudo isso elevou o PIB Nacional desde 1999. Os resultados aplicados aos municípios estão restritos ao período 2010-2013.


 


Gerente de Pesquisas de Indústria do IBGE, André Macedo afirmou no início deste ano que a atualização da cesta de produtos e a estrutura de ponderação dos setores deram mais robustez ao PIB. “Um exemplo de itens que não captávamos na pesquisa anterior eram os tablets e a produção de biodiesel. Também há perdas importantes, como o setor de edição, produção e gravação de som que saem da indústria e passam a ser captados pela pesquisa de serviços, mas continuam entrando no cálculo do PIB” – afirmou.


 


O número total de produtos pesquisados subiu de 755 para 806 no cômputo nacional, que integra o cálculo do PIB. A expectativa do IBGE se confirmou com a divulgação dos dados municipais: a ampliação da cesta de produtos melhorou o desempenho da indústria captado pelo instituto, inclusive com a revisão dos números. O setor industrial brasileiro cresceu 2,3% em 2012 em relação ao ano anterior com a aplicação da nova metodologia. As mudanças foram consideradas corretas, uma vez que os dados da indústria têm peso importante no PIB.


 


É provável que o PIB dos Municípios nas próximas temporadas de vacas magras no setor automotivo, em 2014 e 2015, estreite ainda mais a participação da região no bolo nacional. Ou seja: não conseguimos acompanhar o ritmo de crescimento já bastante comprometedor do principal macroindicador do comportamento econômico do País. Resultados que acabam por afetar outros indicadores.


 


Comparando os dados


 


A perspectiva de que o PIB da Província do Grande ABC cairia pela terceira vez seguida em 2013 e a divulgação dos dados do IBGE que constatou o crescimento discreto de 1,79% quando aplicada a deflação de valores não significa que houve erro de cálculo tanto desta revista digital quanto do Observatório Econômico da Universidade Metodista, como alguns apressados sugerem.


 


Numa típica jogada para a plateia à custa de seriedade interpretativa, esses apressados descontextualizam os dados, retira-os das respectivas argamassas metodológicas com que foram construídos e querem fazer crer que, ao silenciarem sobre o que viria do IBGE como resultado do comportamento da Economia da região em 2013, utilizaram-se do bom senso. Na verdade, foram no mínimo omissos. Uma das funções do jornalismo é traçar horizonte explicativo a determinadas situações. Previsões sobre o PIB são uma constante no jornalismo internacional. E retificações por conta de eventuais alterações de medição evocam avaliações sérias.


 


Sair a campo para dizer que os dados do PIB da Província do Grande ABC contrariaram prognósticos pessimistas é no mínimo uma tentativa de substituir o feixe que identifica omissões interpretativas por manipulação insensata de informações. São mais que engenheiros de obras feitas. São engenheiros de obras modificadas.


 


Faces contraditórias


 


O que se poderia chamar de novo PIB do IBGE impediu que a Província do Grande ABC mergulhasse em nova temporada de quebra de valores de produção de riqueza. A nova metodologia reúne duas faces contraditórias.


 


Primeiro, favorece a região ao definir um peso superior ao setor de transformação industrial. O PIB Industrial da região é o mais elevado do País, com 30% de participação no PIB Geral. A média brasileira é de 10%. Entre os municípios economicamente mais fortes do Estado de São Paulo, agrupados no G-22, que reúne os sete municípios locais e os 15 maiores do Estado, exceto a Capital, a média do PIB Industrial é de 20%.


 


Segundo, porque demonstra que ganhos monetários resultantes da nova metodologia foram inferiores aos de territórios mais dinâmicos que a região. Daí, a queda da participação relativa do conjunto dos municípios locais.


 


Desde 1999, base dos estudos de CapitalSocial, apenas uma vez, em 2009, sob efeitos de dura recessão, a Província do Grande ABC registrou menos de 2,16% de participação nacional desta temporada. Naquele 2009 o PIB Regional significou apenas 2,14% do PIB Nacional.  Em 1999, largada do estudo, o PIB da Província representava 2,45% do PIB Nacional.


 


Registra-se, portanto, em relação a essa base, perda de 30,68% no peso regional no mapa nacional. Nos anos seguintes, a participação do PIB Regional no PIB Nacional obedeceu ao seguinte desempenho: 2000 (2,37%), 2001 (2,46%), 2002 (2,33%), 2003 (2,41%), 2004 (2,42%), 2005 (2,35%), 2006 (2,32%) 2007 (2,32%), 2008 (2,26%), 2009 (2,14%), 2010 (2,50%), 2011 (2,36%), 2012 (2,21%) e 2013 (2,16%).


 


Convém uma advertência sobre o grau de inserção da economia regional no ambiente nacional: os números anuais do PIB da região desde 1999 obedeceram rigorosamente aos dados divulgados anteriormente pelo IBGE. Isso significa que apenas no período de 2010 a 2013 estão incluídos os valores com o recheio atualizado pelo instituto.


 


Compatibilizar informações


 


Acredita-se que, como no caso do PIB Nacional, o IBGE irá atualizar também o desempenho dos municípios brasileiros nos períodos anteriores. Será muito mais trabalhoso, evidentemente. Mas qualquer consideração que, até eventual atualização, desconsidere as mudanças divulgadas em março deste ano, estará fadada a escorregadelas. Por exemplo: comparar o PIB da região em 1999 com o PIB de 2013 seria uma catástrofe. É indispensável que se coloquem em confronto dados cujas bases metodológicas sejam iguais.


 


Desta forma, parece mais que evidente que confrontar o comportamento do PIB Regional de 2013 agora com nova metodologia com o que se projetou para o mesmo PIB Regional deste 2013 sem que fossem introduzidas inovações que alteraram bastante o peso do setor industrial tem sentido semelhante a colocar no mesmo nível de comparação uma equipe que só perdeu um jogo numa competição da qual participaram apenas 10 concorrentes em turno e returno e uma equipe que perdeu igualmente apenas um jogo numa competição de turno e returno disputados por 20 concorrentes.


 


Aliás, os valores conhecidos anteriormente do PIB Regional ainda com roupagem metodológica antiga, quando comparados aos valores das mesmas temporadas (2010, 2011 e 2012) agora com a introdução de mudanças, revelam que não se tratam das mesmas mercadorias numéricas.


 


Portanto, os leitores que se acautelem ante variações interpretativas que desconsiderem a mudança das regras do jogo. Mas tudo isso estará ainda mais clarificado quando o IBGE revelar informações setoriais do PIB dos Municípios, alinhavando dados individualizados de indústria, serviços, administração pública e agricultura. Aí sim será possível avaliar oscilações do PIB Municipal com nova e com antiga modelagem.


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