Enquanto o Clube dos Construtores do Grande ABC, sob nova direção, sofre para tentar divulgar o primeiro balanço do mercado imobiliário nesta temporada, o setor acaba de ganhar um indicador nacional que parece bem mais confiável do que qualquer outro – e isso não é pouca coisa.
Saiu no jornal Valor Econômico de ontem que a Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) e a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), criaram o Radar, estudo que envolve 12 indicadores. Os primeiros resultados são tenebrosos: o mercado imobiliário brasileiro passa pelo pior momento desde 2004, ano que marca a base de dados.
Quem acompanha esta revista digital sabe que não é de hoje que cobro do Clube dos Construtores seriedade e responsabilidade social com os dados do mercado imobiliário da região. Esse é um dos pontos dos embates com o então presidente Milton Bigucci, avesso a qualquer tipo de transparência pública.
Felizmente com a nova diretoria da associação, com controle compartilhado do presidente Marcus Santaguita, respiram-se ares democráticos. Lamentavelmente, ainda, não foi possível em sete meses de mandato encontrar uma saída para o enrosco deixado por Bigucci. Está na cara que a entidade não tem estrutura para sustentar operacionalmente estudos confiáveis para divulgar os dados com segurança de quem não está vendendo ilusões. Foi essa a prática constante do ex-presidente.
Felizmente, como há coalizão de forças diretivas no Clubes dos Construtores para apagar os pecados da antiga direção, mais dia, menos dia, teremos novidades na praça.
Quatro dimensões
Mas o que interessa mesmo agora é o conjunto de indicadores do Radar Abrainc-Fipe. A iniciativa coloca o mercado imobiliário num patamar bastante superior ao que oferece há muito tempo. Segundo a reportagem do Valor Econômico, o levantamento tem pontuação de zero a dez, conforme as condições de cada um dos 12 indicadores.
O estudo combina quatro dimensões – ambiente macro, créditos imobiliários, demanda e ambiente setorial. Cada um desses cenários contempla três indicadores. O estudo utiliza fontes públicas de dados como Banco Central do Brasil (Bacen) e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O Radar Abrainc-Fipe, sempre segundo o Valor Econômico, apontou nota global para os cinco primeiros meses de 2016 de 2,5 pontos, o que representa queda de 1,5 ponto ante a média do ano passado. Houve queda nas quatro dimensões avaliadas. Considerando-se os indicadores, oito caíram e quatro aumentaram nessa base de comparação. Os indicadores são elaborados a partir de séries dessazonalizadas. Sigo com a matéria do Valor Econômico:
A dimensão ambiente do setor teve redução de 0,5 ponto para 4,5 pontos até maio de 2016. Essa dimensão abrange preço dos imóveis, lançamentos e insumos. O ambiente macro – que inclui confiança, atividade e juros – obteve nota de um ponto, com retração de 1,2 ponto. Houve queda de 1,5 ponto na dimensão crédito imobiliário – condições de financiamento, concessões reais e atratividade do financiamento imobiliário – para 2,7 pontos, e queda de 2,8 pontos na demanda – que inclui atratividade do investimento imobiliário, massa salarial e emprego – para 1,5 ponto. Em maio, a média dos indicadores foi de 2,2 pontos, o que representa queda de 0,6 ponto em relação à nota de 2,8 pontos de dezembro de 2015. Metade dos 12 indicadores que compõem o Radar Abrainc-Fipe apresentou situação pior em maio deste ano do que em dezembro de 2015. A maior redução foi registrada no indicador de atratividade do financiamento imobiliário, com variação negativa de 4,2 pontos. Houve piora também nos indicadores de atividade, massa salarial, condições de financiamento, preço dos imóveis e emprego. Em relação aos indicadores que apresentaram melhora – juros, atratividade do investimento imobiliário, lançamentos, concessões reais, insumos e confiança – o estudo ressaltou que se trata dos chamados indicadores antecedentes, ou seja, que vêm antes do Produto Interno Bruto (PIB).
Falta força-tarefa
Fiz questão de reproduzir muitos dos trechos da reportagem do Valor Econômico para sustentar a impressão de que é possível, muito provável, que, finalmente, o mercado imobiliário nacional passou a contar com estudo muito mais confiável, completo e importante do que tudo que está aí.
Os indicadores mais conhecidos são do Secovi, realizados por empresa especializada. Entretanto, os dados levados ao público consumidor de informação são bastante restritos, quando deveriam seguir a trilha do Radar, explicitamente claro no dimensionamento dos fatores técnicos e ao ambiente econômico que o sustentam como fonte ao que parece indispensável à sociedade.
Sei que é pedir demais aos novos dirigentes do Clube dos Construtores do Grande ABC, às voltas com o apagar de incêndios de equívocos, buracos negros, omissões e tudo o mais da gestão de Milton Bigucci, mas tenho uma sugestão. Já que se constatou ao vivo e em cores que a escassa e imprecisa produção de dados rudimentares sobre o mercado imobiliário da região era uma conjunção de improviso, imprecisão e especulação, quem sabe uma força-tarefa não venha a ser formada para colocar definitivamente ordem na casa?
Agora com o Radar Abrainc-Fipe, quem sabe o Clube dos Construtores, em parceria com alguma organização interessada no setor, não possa manter intercâmbio de informações que, metabolizadas e adaptadas à geografia regional, alimentem um sistema de dados que favoreça a construção de uma espécie de Radar da Província?
O que é preciso evitar – entre tantas mazelas que estão na praça regional – é o despautério que se deu nos últimos anos em forma de, no campo estritamente de negócios, emergirem micos imobiliários por todos os cantos. O processo autofágico do setor contou com a incompetência da associação empresarial que deveria ser a primeira a se preocupar com o dia seguinte.
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