Sociedade

História para
contar e mostrar

ANDRE MARCEL DE LIMA - 05/10/2001

A Fundação Pró-Memória completa 10 anos com profusão de ações voltadas ao resgate, reconhecimento e valorização de fatos históricos e raízes culturais de São Caetano. A fundação custeada pelo Poder Público multiplica esforços para manter o passado vivo nestes tempos de transformações em velocidade vertiginosa. Entre as principais ações estão o projeto Memória e Cidadania, exposições que levam cultura até bairros e empresas, além da iniciativa mais ambiciosa: a que pretende transformar São Caetano em verdadeiro museu a céu aberto por meio de trabalhos de musealização in loco promovidos em parceria com o MAE-USP (Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo). 

"Há tesouros encobertos cujo resgate contribui para reforçar o senso de coletivismo e cidadania dessa e das próximas gerações" -- observa a presidente Sônia Maria Franco Xavier. Formada em história e filosofia, Sônia deixou a diretoria do Museu Histórico Municipal, a qual integrou durante 20 anos, para assumir a presidência da Fundação Pró-Memória no início de 2001. O presidente anterior, Aleksandar Jovanovic, foi alçado à diretoria de Comunicação Social da Prefeitura.

A transformação da cidade em museu a céu aberto depende da utilização de duas ferramentas científicas sob domínio dos estudiosos da Fundação Pró-Memória e do Museu da Universidade de São Paulo: arqueologia e museologia. Arqueólogos promoverão escavações e museólogos empregarão conhecimentos técnicos de preservação do patrimônio cultural para manter achados arqueológicos nos locais onde forem encontrados, de modo a não afetar a contextualização histórica. O alvo das escavações será o Bairro Fundação, onde São Caetano foi fundada com as primeiras comunidades de imigrantes italianos. O trabalho se realizará sobretudo ao redor da Matriz Velha e nas ruínas das antigas Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, em cuja área existiu a fazenda de monges beneditinos na época do Brasil-Colônia e que deram origem ao povoado.


Estrutura exposta -- Uma mostra do que os pesquisadores pretendem com o projeto de musealização arqueológica está exposta no Bairro Fundação há quase 10 anos. Trata-se da estrutura de uma capela construída provavelmente entre 1717 e 1720 e que fica ao lado da igreja erguida no final do século XIX. A estrutura da capela está exposta em uma vitrine por museólogos desde que foi descoberta durante escavações arqueológicas conduzidas entre 1991 e 1992 por meio de convênio entre a Fundação Pró-Memória e o Museu Paulista da USP, mais conhecido como Museu do Ipiranga. 

"A parceria com o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP representa continuidade das escavações promovidas com apoio do Museu Paulista" -- explica a presidente Sônia Xavier. Ela lembra que agora as condições para as buscas arqueológicas estão facilitadas porque a área antigamente ocupada pelas Indústrias Matarazzo foi liberada pelos proprietários para as incursões científicas dos pesquisadores. "Naquela época a proibição de explorar o local engessou o trabalho" -- recorda. 

Apesar da limitação espacial, as escavações realizadas com o Museu Paulista da USP renderam bons frutos. Além da estrutura da capela mais antiga no território de São Caetano, foram encontrados centenas de vestígios cerâmicos dos séculos XVIII e XIX. O material integra o acervo do Museu Histórico Municipal, casarão do início do século passado administrado pela Fundação Pró-Memória. "Os achados da primeira escavação já foram fotografados e integrarão catálogo que será lançado no ano que vem" -- destaca Sônia Xavier. 

A iniciativa da Fundação Pró-Memória com o MAE-USP tem patrocínio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e vai muito além das escavações, que começam este mês se estendem por dois anos. A transformação de São Caetano em museu a céu aberto depende também do reconhecimento e valorização de reminiscências históricas que não estão necessariamente sob a terra, mas na superfície. "A chaminé da antiga Matarazzo é exemplo de edificação que tem importância histórico-cultural intrínseca e que precisa ser valorizada" -- ilustra Sônia Xavier. 

A maneira como a instituição pretende colocar os atributos históricos em evidência é a mesma consagrada por várias regiões européias que não subestimam a importância cultural e econômica de preservar raízes: afixação de placas com síntese histórica sobre os monumentos ou edificações e formatação de roteiros de visitação. Sônia Xavier observa que a iniciativa reforça a identificação do povo com a cidade na mesma medida em que exalta São Caetano aos olhos de quem é de outros municípios ou regiões. "A cidadezinha portuguesa de Beja, que tive o prazer de conhecer, tem apenas 40 mil habitantes e vive basicamente das receitas geradas pelo turismo histórico" -- comenta Sônia Xavier, para ilustrar os desdobramentos econômicos do turismo cultural.

A definição do que é relevante sob o ponto de vista histórico pressupõe mergulho no passado da região. Foi exatamente isso que a equipe científica da Universidade de São Paulo fez logo após a assinatura do convênio com a Fapesp, no final de 1999.  Os pesquisadores fizeram pesquisas bibliográficas, participaram de seminários com lideranças públicas e privadas e conversaram com moradores para absorver a cultura da cidade antes de partir para os trabalhos de campo. Além de escavações para musealização in loco e formatação de roteiros de visitação, a parceria com o MAE-USP produzirá carta arqueológica de São Caetano. Trata-se de publicação que colocará as descobertas ao alcance do público em geral. 


Testemunhas históricas -- O projeto Memória e Cidadania é outra ação heterodoxa voltada ao resgate da cultura local. A diferença é que enquanto a musealização arqueológica narra a história por meio de objetos e estruturas físicas, o Memória e Cidadania conta o passado por intermédio das recordações de testemunhas oculares. Os moradores mais antigos foram identificados por meio de censo histórico realizado com participação de alunos do Imes (Centro Universitário de São Caetano) e convidados a conceder entrevistas aos pesquisadores da Fundação Pró-Memória para contar as transformações que acompanharam ao longo de décadas. Ao todo são 300 participantes, 20 para cada bairro, dos quais 45 já deram depoimentos. As entrevistas serão convertidas em dois documentos: um livro a ser publicado em 2002, além de arquivo com gravações, chamado Base de Dados de História Oral. "É a história por quem viveu e interagiu com a cidade" -- sintetiza Sônia Xavier.  

O projeto Memória e Cidadania é realizado no contexto do Governo Itinerante, programa da Prefeitura de São Caetano que se propõe a aproximar a administração pública dos moradores com a transferência do gabinete do prefeito e do secretariado para os bairros, em dias pré-agendados. O prefeito homenageia os moradores mais antigos com oferecimento de placas de reconhecimento e a Fundação Pró-Memória aproveita o fluxo privilegiado de moradores em torno do Governo Itinerante para promover exposições que retratam o passado dos bairros, além de distribuir folders coloridos que trazem história e características de cada um. Além do Bairro Barcelona, já participaram Santa Paula, Santa Maria e o Centro. 


Nas empresas -- Além de planos como a musealização arqueológica e o projeto Memória e Cidadania, a Fundação Pró-Memória contabiliza muitas realizações. Realizações, aliás, que puderam ser observadas em exposição especial sobre o aniversário de 10 anos da entidade, encerrada em 31 de agosto.

A Fundação Pró-Memória já realizou mais de 80 mostras inéditas no salão de exposições instalado na sede da Avenida Goiás e no Museu Histórico Municipal, no Bairro Fundação. Mas a exibição de materiais que resgatam as raízes da cidade extrapola os dois espaços fixos que administra. A fundação também leva fotos e textos a ambientes empresariais com grande fluxo de público. A entrada principal do Hipermercado Extra já acolheu trabalhos sobre a história do comércio de São Caetano e memórias da indústria, entre outros. A padaria Ben Hur, do Bairro Nova Gerty, já sediou mostra fotográfica sobre o futebol amador da cidade. Restaurantes como Grill 2000, Laporte e Nostra Città, além do Frans Café, já acolheram exposições diversas, bem como agências bancárias, parques e sedes de entidades classistas como a Aciscs (Associação Comercial e Industrial de São Caetano). 

A Fundação Pró-Memória também leva exposições a dezenas de escolas públicas e privadas do Município por meio do projeto Museu na Escola, implantado em 1997. A cada ano novo tema é apresentado aos alunos: As Olarias de São Caetano, em 1997; São Caetano -- 50 Anos de Autonomia, em 1998; O Operário e a Fábrica, em 1999; São Caetano nos 500 anos do Brasil, em 2000; e Imagens de São Caetano no Século XX, em 2001.

Na área editorial os produtos que mais se destacam são a revista Raízes, que está no 23º número, além de vários livros publicados, entre os quais Diário de Fim de Século, escrito pelo sociólogo José de Souza Martins, Meio Século de Legislativo, de Yolanda Ascêncio, e São Caetano -- de Várzea Alagadiça a Príncipe dos Municípios, por Wilson Loduca. 

A Fundação Pró-Memória conta com orçamento anual de R$ 500 mil e emprega 20 profissionais entre historiadores, museólogos, jornalistas, restauradores, fotógrafo e artista plástico. Os recursos são potencializados com convênios e parcerias que garantem repasse de know-how, treinamento, produção de tecnologia, além de ampliação de possibilidades de pesquisa e troca de experiência profissional e intercâmbio de espaços. Além do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, a fundação mantém parceria ou convênio com o Museu Paulista da USP, o Memorial do Imigrante e a Secretaria de Estado de Recuperação de Bens Culturais. 

A presidente Sônia Xavier aponta, entretanto, que a contribuição mais valiosa vem dos habitantes. São eles que alimentam a fundação com fotos e relíquias que servem de objetos de estudo e, quando doados, ampliam o acervo do Museu Histórico Municipal --que mantém mil peças em exposição e outras quatro mil em reserva técnica. "A fundação cresce à medida que a sociedade participa" -- define a filósofa e historiadora. Uma prova de que a instituição utiliza as facilidades da modernidade em benefício da história está no site www.fpm.org.br, pelo qual é possível encontrar informações sobre a Fundação Pró-Memória, história e fotos inéditas do Município, bem como calendário de exposições e textos das edições mais recentes da revista Raízes. 


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